Santo Antão – A Ilha do Futuro

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por Maria João Guardão

fotos Miguel Santos – Revista Up Magazine – TAP

No mais montanhoso território de Cabo Verde as ligações sempre se fizeram a pé, por caminhos que unem as povoações e fascinam os mantes das grandes caminhadas.

Um turismo sustentável faz crescer projetos de alojamento, gastronomia e cultura. Tudo com muita morabeza.

Chegámos ao cume do Topo de Coroa às 8h55 da manhã.

A cratera do vulcão adormecido desenha-se contra o céu limpo, a 1979 metros da linha de água, antes de se recipitar no vale lá em baixo. Pela frente, o oceano sem fim garante que estamos na mais ocidental ilha do barlavento cabo-verdiano, a que vai à frente das outras nove pelo Atlântico adentro; atrás de nós, um campo de nuvens esconde Gudo Pia e Gudo Cedrão, os dois cumes que é preciso ultrapassar para chegar aqui, à montanha mais alta de Santo Antão.

Trepamos pelos carreiros de pedra vulcânica a essa hora em que o dia nasce como se fosse o princípio do mundo e em jejum, como manda a tradição, para manter leves corpo e espírito.

Chegados ao cume, até a paisagem de cortar a respiração perde para o queijo de cabra, ovo, maçã e bolacha, manjar de deuses numa terra em forma de paraíso.

Na mais montanhosa ilha do arquipélago, as ligações sempre se fizeram a pé, por caminhos que unem as localidades, e mesmo agora, que o tempo e a economia trouxeram estradas e carros, a rede de caminhos vicinais continua a ser crucial para a vida das comunidades e para fascinar os amantes de grandes caminhadas que vêm de fora.

Esse turismo sustentável, de hiking e trekking, é um catalisador do desenvolvimento de Santo Antão, fazendo crescer projetos de alojamento e gastronomia, estimulando a agricultura e a transformação artesanal de produtos da terra, contrariando a emigração e promovendo a autonomia das comunidades.

É para conhecer e cartografar essas iniciativas que aqui estamos, guiados pelo projecto Raízes – Redes Locais para o Desenvolvimento do Turismo Local e Inclusivo em Santo Antão que junta sociedade civil e entidades santantonenses num plano despoletado pela associação portuguesa para o desenvolvimento ADPM e financiado pelo Instituto Camões e pela União Europeia.

Uma das operações em marcha é o mapeamento e recuperação dos caminhos vicinais, como o que encaracola montanha baixo até Tarrafal de Monte Trigo, à beira-mar, que percorremos com João Morais, do Raízes, guia precioso nascido e criado na ilha, a apontar o destino.

Chegamos à povoação acompanhando a levada (os canais de pedra que transportam a água para os campos) a tempo da melhor cachupa (o tradicional prato) de pequeno-almoço deste mundo e do outro, antes de continuar a serpentear pela falésia no único caminho que leva a Monte Trigo, uma das comunidades mais remotas da ilha. São outras quatro horas de caminhada paralela ao mar para chegar à enseada com uma vintena de casas e uma pensão que oferece peixe do mais fresco que há – pescado por quem o come, se quiser, que a pesca desportiva é outro ponto forte da região –, além de alojamento e uma resistente mesa de matraquilhos.

Depois de um campeonato e um mergulho, apanhamos uma bateira de regresso a Tarrafal de Monte Trigo, passando ao largo das pequenas línguas de areia onde as tartarugas escavam os ninhos entre junho e outubro, vigiadas pelos ativistas do Projecto Vitó, que há uma década sensibilizam as populações para a necessidade da sua proteção.

Ao final da tarde, quando a comunidade se reúne para dois dedos de conversa na imensa praia de areia negra, a vontade é fazer bom uso das esteiras que vimos Tchã (Graciano Évora) entrelaçar, esta manhã, com a mesma mestria de uma vida inteira revelada nos dedos de Dindim (Arlindo Fortes), cesteiro em Espongeiro, na outra ponta da ilha.

Tudo drêt? Tudo sab!

Santantão, na grafia orgânica do crioulo, é rica em talentos e em nominhos, o nome afetuoso que cada pessoa sempre tem nessa língua materna que é doce e que é “sab”, como canta Cesária Évora, voz da essência cabo-verdiana que dá nome ao aeroporto da vizinha São Vicente. Foi lá que aterrámos para apanhar o grande barco que, duas vezes por dia, liga as ilhas numa travessia de menos de uma hora até Porto Novo, sede de concelho populosa e culturalmente rica – sobretudo quando a febre de Kola Sanjon (Festas de São João) invade as ruas, em junho, com o ribombar dos tambores de artesãos como Betchinha de Sôdad (Sebastião Monteiro), cujo ateliê havemos de visitar.

A chegada a Santantão não deixa adivinhar o prodígio do solo fértil que alimenta Cabo Verde e, para ver de perto as imensas ribeiras por onde as águas correm quando a chuva não falha, é preciso tomar uma das três estradas a partir da antiga mansão do governador frente ao porto, assinatura da presença colonial portuguesa que até 1975 dominou os destinos do arquipélago: até Ribeira da Cruz, visitando Lagedos e Ribeira das Patas ou, no sentido oposto, pela marginal até Vila das Pombas, passando pelo Farol Fontes Pereira de Melo e parando em Fronteira de Janela para ver a Pedra Scribida (penedo com marcas misteriosas, anteriores ao povoamento), comer moreia frita e, se a banda estiver a tocar, fazer a festa à beira-mar; sempre em frente chega-se a Ponta do Sol, a Ribeira Grande e, mesmo ao lado, às piscinas naturais de Sinagoga.

Abundam os populares alugueres (transporte coletivo) e há táxis para as rotas menos batidas ou mais acidentadas, onde o jipe é mesmo a única opção. E depois é certo que ninguém o deixará perdido numa beira de estrada, a morabeza (delicadeza, amabilidade) cabo-verdiana é forte em Santantão, a par com a tranquilidade e segurança. Essa arte de bem receber e bem tratar toma forma de grogue e ponche, as bebidas tradicionais feitas a partir da cana de açúcar e oferecidas em cada casa que visitamos, e exprime-se melhor em crioulo – “Tud drêt?” “Tud sab!” (“Tudo bem?”, “Tudo maravilha!”) são palavras-passe que rapidamente fazemos nossas.

Seguindo pela velha estrada de Corda entramos no Parque Natural da Cova, Ribeira da Torre e Paúl, que ergue as suas escarpas dramáticas contra o fundo azul do céu e do mar.

De Cova, orla da cratera do vulcão adormecido com vista para o puzzle de terrenos agrícolas que cobre o vale, parte um dos caminhos vicinais mais extraordinários da ilha.

São quase 13 quilómetros a ziguezaguear montanha abaixo até Vila das Pombas, com descanso garantido na Casa Maracujá, em Cabo da Ribeira, onde Hetty Vanny reinventa sabores e promove os saberes locais, trabalhando com a comunidade.

Se adiarmos a descida e seguirmos em direção ao Parque Natural de Maroços, chegamos a Chã de Caldeiras, casa da Associação das Mulheres do Planalto Leste, que agrega várias chefes de família empenhadas na sua própria autonomia. Produzem licores que resultam da infusão de grogue e plantas locais com propriedades medicinais, e o local, no coração da floresta, oferece condições propícias ao turismo de terraço, modalidade muito praticada nesta ilha de noites quentes (os preços rondam os €10-€13 por noite e incluem colchão, pequeno-almoço e uso das infraestruturas na casa mãe, onde também há quartos tradicionais).

Em Ribeira das Patas, no cruzamento de vários caminhos vicinais, Maria Filomena Delgado também abre a porta de casa a quem queira pernoitar, além de cozinhar uma cachupa a preceito.

A vizinha cooperativa CVC Agroalimentar produz chás, sumos e fruta desidratada e, mais à frente, a Paradise Soaps concretiza o projeto maravilha de Inês da Graça Silva, que se fez médica dentista na Califórnia e regressou à terra para erguer uma fábrica artesanal de sabonetes que emprega várias chefes de família e cujos lucros revertem a favor das crianças mais desfavorecidas do país.

Recordar Santo Antão quando estivermos longe passa por aqui, e também pelos produtos que a Cooperativa de Mulheres de Lagedos comercializa na casa com portadas azul turquesa do centro da vila, do omnipresente grogue aos licores, doces (manga e goiaba são de chorar mas a geleia de marmelo de v, que vimos cozinhar, também é um prodígio) e bolsas de tecido tradicional e design sofisticado. Este é um projecto criador de emprego e felicidade, posto em marcha pela santantonense Mami Estrela (e pela ONG Atelier Mar) e que se estende a um dos melhores restaurantes da ilha, o Babilónia, com Dilma Baptista Almeida no comando da cozinha.

Firmeza!

Fontaínhas, comunidade que olha para o mar empoleirada em altas falésias, está recorrentemente no top 5 das paisagens rurais mais belas do mundo.

Passando o bar Tchu – paragem obrigatória para uma cerveja Strela fresquinha – o longo e serpenteante caminho vicinal dá acesso exclusivo à comunidade vizinha, o Corvo, e depois a Formiguinhas e, ainda mais além, a Cruzinha.

Na subida, encontramos três aldeãs com sacos de víveres à cabeça e chinelas nos pés, a mais velha de bengala, todas de sorriso na cara. “Firmeza!” desejam-nos, depois de dois dedos de conversa, a descer muito asinhas. Respiramos fundo e continuamos.

Nestes caminhos de pedra há muitas vezes tantos burros como gente, únicos auxiliares de transporte e tão preciosos como as cabras, fonte do famoso queijo fresco da ilha e sustento da esmagadora maioria das gentes das regiões mais desertas. Pelo contrário, nas escarpas dramáticas onde a terra é forte e opulenta, os habitantes vivem quase exclusivamente da agricultura em comunidades assentes a prumo na montanha.

Como em Ribeira da Cruz, com vista para o impressionante desfiladeiro que dá nome à comunidade e escava na terra o cenário de desportos mais ou menos radicais – do canyoning às corridas de cavalos nas Festas de Santo André –, onde Vanderley Rocha contrariou a tradicional agricultura de alagamento e implantou o sistema de rega gota a gota, fazendo crescer exponencialmente a produção (e os postos de trabalho). É ela que alimenta as deliciosas refeições da Casa Branca, alojamento familiar onde pratica com excelência a morabeza e produz o mais fino grogue que nos foi dado provar.

Trazer o melhor da tradição para o aqui e agora é também o caminho do Grupo de Dança de Lagoa de Ribeira das Patas que faz a festa de domingo no terraço da comunidade, e nos faz parar no regresso a Porto Novo. A voz do mandador conduz os passos dos jovens pares ao ritmo da música, mas as voltas da contradança, da mazurca e da morna vêm do fundo dos tempos, dos avôs e das bisavós.

Em Santantão dança-se a apontar para o futuro.

Opinião