HIV: testemunho no feminino

HIV: testemunho no feminino

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A propósito do Dia Mundial de Luta contra a Sida, que se assinala a 01 de Dezembro, o Santo Antão News entendeu reportar testemunhos deste flagelo na classe feminina, já que os números do III Inquérito Demográfico e de Saúde Reprodutiva apontam para um aumento da prevalência do VIH nas mulheres, em Cabo Verde, de 0,4% para 0,7%.

Celebra-se no primeiro dia do mês de dezembro, o dia Mundial da Luta contra a Sida. O mês das festas, das vibrações fortes, do entusiasmo para além de ser mês propício ao consumo do álcool e outras drogas e consequentemente o contágio devido as relações sexuais desprotegidas.

Também o ultimo mês do ano em que muitas pessoas fazem uma profunda análise daquilo que foi o ano e perspetivam novas conquistas, novos sonhos a realizar no ano seguinte. Segundo os dados do III Inquérito Demográfico e de Saúde Reprodutiva apesar da prevalência do HIV a nível do país ter diminuído de 0,8% para 0,6%, houve um pequeno aumento na classe feminina.

O Santo Antão News foi ao encontro de mulheres solteiras, casadas que julgavam que o VIH era um problema dos outros – pensavam elas. A pedido das entrevistadas não revelamos, para já, os nomes das mesmas.

“O HIV é para mim uma marca invisível, mas diariamente me recordo. Sou portadora há cinco anos, disse angustiada a Sandra de 38 anos (nome fictício), mãe de três filhos saudáveis, sendo o último com 9 anos.

A entrevistada contou ao Santo Antão News que não tem sintomas mas sabe o que vem no seu sangue, apesar de ser uma angústia quando se lembra, vive a sua vida com esperança de perdurar por muitos anos, foi o que o médico lhe disse e acredita firmemente. Quando recebeu a notícia da seropositividade sofreu bastante, “foi um enorme choque”, ficou desesperada.

“Tomei comprimidos para dormir porque só tinha pensamentos negativos”. Hoje “Sandra” vive mais tranquila, pois segue a risca o seu tratamento antirretroviral, tem cuidado com a alimentação, com as horas de sono, com tudo o que lhe possa gerar stress.

“Eu e o meu companheiro descobrimos que somos seropositivos através de uma simples análise de sangue, não sabemos quem contagiou quem. O momento mais difícil foi quando contei à minha família.A notícia não foi bem aceite, pois as famílias cabo-verdianas não estão preparadas para tais notícias. Eu e meu companheiro, apesar de sermos todos seropositivos, temos relações, sempre com protecção, claro” .

O drama da discriminação

A discriminação é uma realidade, que não se pode descorar, avança “Sandra”. Muitas pessoas, até mesmo amigos e familiares, fazem comentários indecentes e esqueçam que é uma doença e que pode ir ao encontro de qualquer um que por ignorância ou descuido assim como eu partem para relações sexuais desprotegidas.

“Infelizmente com tanta informação a circular ainda existem pessoas que acreditam que o HIV só atinge outras pessoas”.

Usar preservativo é também ser responsável

“Usar preservativo hoje tem outro significado para mim. Usar não só para evitar apanhar alguma doença, mas sim porque é uma obrigação, uma responsabilidade, o desejo de não infectar o meu marido”, diz “Ana”, 28 anos.

“Tenho vergonha da minha irresponsabilidade no passado. Era muito nova quando descobri a doença, com 20 anos já era seropositiva. Descobri na sequência de uma gravidez indesejável quando fiz o teste de rotina que fazem em todas as gravidas. Dou graças a Deus que consegui o tratamento e o meu filho hoje vive livre da doença. É uma criança saudável, pois caso contrário eu não me perdoaria”.

“Apesar da doença considero-me uma pessoa feliz, tenho uma vida razoável, meu trabalho, um filho fantástico e um parceiro que me adora é compreensivo e me demonstra afecto. Contei a verdade ao meu namorado ainda no início do relacionamento. Se não me amasse, teria fugido. Mas ficou comigo. Mas houve amigos e até familiares que me viraram as costas. Renasci, reinventei-me. Passei de um estado de profunda tristeza e desespero para uma visão cheia de esperança e otimismo. Claro que isto não é possível num estalar de dedos. É um caminho interior, pois o que não nos mata torna-nos mais fortes, sem dúvida” revela.

Tendo em conta os dados da prevalência do HIV em Cabo Verde, sobretudo o aumento nas mulheres, a Secretária Executiva do Comité de Coordenação do Combate à SIDA (CCS/Sida), Celina Ferreira, defendeu a necessidade de mais intervenções, no sentido de minimizar os problemas e de tornar as mulheres mais ativas e integradas nas respostas ao HIV/Sida.

Celina Ferreira assegura que o CCS/SIDA vem trabalhando com a rede de parceiros e estruturas públicas nas ilhas, com atividades de esclarecimento e de conhecimento direcionadas às mulheres.

É de se referir que o tratamento é gratuito para todos quantos necessitam, estando á disposição uma equipa multifacetada e com qualidade para atender os utentes, para alem de existirem nas comunidades ações de sensibilização para que as pessoas possam dirigir aos Centros e, assim, serem esclarecidas, em casos de dúvidas.

A prevalência do VIH em Cabo Verde na população geral, diminuiu, passando de 0,8% para 0,6%, sendo que nos homens passou de 1,1% para 0,4% e nas mulheres de 0,4% para 0,7%, conforme o II e III IDSR.

Em Cabo Verde são diagnosticados, anualmente, uma média de 300 novos casos de VIH, cerca de 16.000 fazem testes de HIV através de estratégias fixa e móvel. Mais de 2.600 que vivem com VIH beneficiam de um seguimento regular, por parte dos Serviços de Saúde, dos quais 2.500 estão em fila ativa para tratamento antirretroviral.

O III IDSR indica que 100% das grávidas seropositivas têm acesso a tratamento antirretroviral, permitindo que o país esteja na meta de eliminação e almejando a certificação de eliminação do VHI de mãe/filho em 2020.

Cláudia Santos

Opinião

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