CRÓNICAS DO FUTURO #1

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Por Paulino Dias

Eram 08h30 da manhã nesta Segunda-feira 28 de Julho de 2025, quando desembarquei no moderníssimo cais de Porto Novo, depois de uma viagem de 20 minutos a partir de São Vicente. Apesar do mar de Sonjõn revolteóde, não nos deixa enjoar o catamaran moderno e confortável pertencente à frota de 4 catamarans da empresa COSATRAN (Companhia Santantonense de Transportes), cujos sócios maioritários são dois irmãos de Ponta do Sol, ex-emigrantes em Holanda. As duas companhias que operam no canal, com um total de 6 navios de diversos formatos, garantem ligações a cada hora com São Vicente.

O movimento no cais é intenso, por conta dos dois enormes navios-cruzeiros atracados, cheios de turistas que vieram visitar a ilha de Santo Antão, atraídos pelo facto de a ilha ter sido catalogada há dois anos como Património Natural da Humanidade (o Gabinete Técnico Intermunicipal, junto com uma comissão de membros da sociedade civil dos 3 concelhos, está agora a preparar a sua candidatura à ilha mais bela do mundo). Mas o desembarque é organizado, os passageiros são conduzidos ao moderno terminal de passageiros onde, à saída se pode pegar o transporte para todas as partes da ilha.

Pensei primeiro em alugar um carro num dos balcões da empresa DONGO RENT-A-CAR (a 3ª maior empresa de aluguer de viaturas sem condutor em Cabo Verde, com operações em todas as ilhas). Ou de chamar um dos taxis estacionados ali perto, com os motoristas nos seus uniformes vistosos e com o crachá onde se pode ler, entre outras informações, as línguas que domina (… o meu amigo Djosa ostenta orgulhosamente no peito o “falo Inglês, Francês e Alemão”). Mas em vez disso, optei por fazer a viagem até Ribeira Grande através de transporte público, num dos hiaces da COTTESA (Cooperativa de Transporte Terrestre de Santo Antão), criada em 2013 pelas centenas de condutores independentes existentes então na ilha e que hoje oferece serviços regulares de transporte a todas as cidades, vilas e povoados da ilha.

Tenho saudades da ilha apesar de me ter ausentado há apenas 15 dias para uma viagem a Xangai onde fui encontrar-me com um dos meus sócios da empresa de organização de passeios de helicóptero e vôos charters a partir do aeroporto de Porto Novo, e por isso opto por fazer a viajem na estrada “velha”, recuperada para fins turísticos e com várias atracções ao longo do percurso: os miradouros de Cova, Pico da Cruz, Pedra Rachada e Delgadinho, o charmoso mercadinho de queijo de Esponjeiro gerido pela cooperativa de produtores de leite e derivados do Planalto Leste, etc. Pode-se também almoçar num dos três restaurantes panorâmicos do empresário Djopan situados ao longo da encosta (hoje cheios de turistas que chegaram nos cruzeiros).

Quase à chegada à cidade de Ribeira Grande, o belo bairro de Cruz espera-nos logo ao virar de uma curva. As casas todas arrumadas, pintadas de branco com um jardim ao redor (projecto conjunto entre os habitantes do bairro, a CMRG e um empresário ali residente) dão um colorido especial e abrem o apetite para que se encontre com a nossa querida Povoação. Esta nos aguarda ao dobrar a primeira curva em cima de Ladeira como se estivesse de braços abertos à espera do seu filho pródigo.

O colorido das casas que descem Ladeira abaixo, em ruas organizadas e limpas, enfeitadas aqui e acolá com amendoeiras frondosas onde miúdos brincam à man-gatchada. Do outro lado, o pitoresco bairro de Tarrafal, recuperado há cerca de cinco anos com base num projecto do renomado arquitecto Lenine Medina e hoje um dos principais atractivos turísticos da cidade, com suas ruelas trabalhadas, seus barzinhos típicos, suas lojinhas de artesanato, o Museu do Pião ao lado da Igreja de São Miguel. Penha de França também nos delicia os olhos. Num projecto envolvendo a comunidade e a CMRG, no quadro do orçamento participativo implementado no Município desde 2015, a comunidade propôs pintar todas as casas apenas de duas cores e transformar o bairro num dos ex-libris da cidade. As casas descem assim, delicadamente pela encosta até encontrar a avenida iluminada localizada em baixo da estrada para Ponta do Sol, junto ao mar.

Hoje ainda se festeja no Largo do terreiro, a vitória do Torrense no campeonato nacional de futebol, cuja final teve lugar no passado Sábado no moderno estádio João Serra em Ponta do Sol. Uma caravana organizada percorreu a tarde de ontem as principais artérias do Concelho, nas estradas largas de Ribeira da Torre, Ribeira Grande (incluindo a volta Coculi – Figueiral – João Afonso – Ribeira de Chã de Pedras, Chã de Pedras, Caibros, toda a estrada asfaltada do Vale da Garça até Cruzinha, com uma paragem na “Pousada dos Escritores”, em Figueiras, logo após a saída do túnel que liga este vale a Ribeira Alta e a Garça de Cima).

 

(Crónica publicado originalmente como comentário no blog “Plurim”, em 08/02/2011)

Opinião

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