Covid-19: WWF estima que toneladas de máscaras descartáveis podem ir parar ao mar

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Luvas e máscaras não são recicláveis, e atirá-las para o chão começa a fazer parte do “novo normal” um pouco por todo o mundo. E mesmo que só 1% das máscaras vá parar ao mar, são 40 toneladas de plástico a inundar os oceanos, alerta a WWF (World Wide Fund for Nature).

O buraco na camada de ozono sobre o Ártico fechou, a NASA registou níveis de poluição do ar muito abaixo da média em vários países, como China, Coreia do Sul, Índia e Itália – mesmo em Portugal, em abril, houve uma redução significativa dos níveis de dióxido de azoto (NO2), chegando aos 80% em alguns locais de Lisboa e aos 60% no Porto –, e as emissões de dióxido de carbono caíram como nunca antes. Mas nem tudo são boas notícias quanto às repercussões no ambiente do confinamento devido ao surto de Covid-19. E o problema está no material de proteção: mesmo que só 1% das máscaras descartadas incorretamente vá parar ao mar, são 40 toneladas de plástico a inundar os oceanos, estima a WWF (World Wide Fund for Nature).

A organização não governamental de ambiente, que atua nas áreas da conservação, investigação e recuperação ambiental, são simples: 1% equivale a 10 milhões de máscaras por mês dispersas no ambiente, e o peso de cada máscara é de cerca de quatro gramas. “É necessário evitar que esses dispositivos, uma vez perdidos, tenham um impacto devastador nos nossos ambientes naturais e, principalmente, nos nossos mares”, alerta Donatella Bianchi, presidente da WWF Itália, que acrescenta um exemplo: só o Mediterrâneo, todos os anos, já tem de lidar com 570 mil toneladas de plástico. É como se 33 800 garrafas de plástico fossem lançadas ao mar a cada minuto.

A mesma pandemia que, ao fechar a maioria da população mundial em casa fez, com que algumas espécies selvagens recuperassem habitats ou as águas dos canais de Veneza voltassem a ser transparentes, é também a responsável por os equipamento de proteção individual (EPI), como luvas e máscaras, se transformarem em lixo. Lixo atirado para o chão das ruas ou dos jardins que, no final, quase inevitavelmente termina no mar, pondo em risco a fauna marinha.

Nos Estados Unidos, em Washington DC, as máscaras caídas no chão acabam no rio Anacostia, na Baía de Chesapeake e depois no Atlântico. Em Kalamata, uma cidade costeira no sul da Grécia, tradicionalmente conhecida pelas suas azeitonas, os habitantes já têm permissão para algum tipo de desconfinamento; mas agora, quando saem à rua, encontram luvas, lenços e frascos de desinfetante descartáveis espalhados pelos parques, passeios e estradas. Um problema transversal também às grandes cidades mundiais, bem como a lugares desabitados como as Ilhas Soko. A poucas milhas náuticas de Hong Kong, Gary Stokes, membro do grupo de conservação OceansAsia, encontrou cerca de uma centena de máscaras ao longo de três visitas à praia. “Não tínhamos visto até então tantas máscaras num local tão remoto”, disse Stokes à Deutsche Welle, que suspeita que tenham vindo da China ou de Hong Kong. “Quando as encontrámos, passavam apenas seis a oito semanas desde que as pessoas começaram a usar essas máscaras.”

Apesar de os países já estarem em diferentes fases de desconfinamento, o uso destas proteções vai continuar a ser necessário, em doses massivas, na ordem dos milhares de milhões de unidades, ainda durante alguns meses. Por isso a situação tende a agravar-se muito.

Luvas que parecem medusas

A produção global de plástico quadruplicou nos últimos 40 anos. Uma tendência que, a continuar a escalar desta forma, representará 15% das emissões de gases de efeito estufa até 2050 – daqui a 30 anos. A estes dados, junta-se outro número alarmante: cerca de oito milhões de toneladas de lixo plástico acabam, anualmente, no oceano. Os EPI são só mais uma ameaça adicional ao gigante uso de plásticos, com a agravante de que as luvas se assemelham a medusas (alimento para as tartarugas) e os elásticos e fitas das máscaras deixam os peixes emaranhados. “Um estudo publicado recentemente mostrou que, quando o plástico é deixado na água por tempo suficiente, e as algas e as bactérias crescem nele, na verdade, cheira a comida para tartarugas”, explica Gary Stokes.

Com o tempo, esses produtos decompõem-se e aumentam as vastas coleções de microplásticos já existentes nas águas, no ar e nos alimentos. À medida que o plástico é produzido para depois ser descartado, combatendo uma crise sanitária sem precedentes, está também a contribuir lentamente para outra crise, a ambiental.

Por enquanto, ainda pouco se pode fazer, dado o tempo desta crise, para reduzir a quantidade de plástico envolvida no combate ao novo coronavírus. Mas os ativistas esperam que as mudanças aconteçam. “Agora vemos algumas pessoas experimentarem desinfetar os EPI, mas isso é, em grande parte, por necessidade – simplesmente porque não temos o suficiente. A longo prazo, queremos ser um pouco mais intencionais sobre isso e desenvolver EPI reutilizáveis e desinfetáveis”, referiu John Hocevar, diretor de campanha dos oceanos no Greenpeace EUA à CNN. Mas são vários “os setores da indústria do plástico a trabalharem muito para explorar os medos em torno da Covid-19”, acrescentou. “É dececionante ver como grupos de lobby estão a tirar partido desse clima de medo e incerteza. Usar esta oportunidade para vender plásticos descartáveis como opção segura é um dos nossos desafios”, salvaguardou Nick Mallos, da ONG americana Ocean Conservancy, à CNN.

A segunda vida das garrafas de plástico

Apesar de as luvas, por exemplo, serem descartáveis, não são recicláveis. E o medo de que possam estar contaminadas com o novo coronavírus faz com que devam ser colocadas no lixo comum. Joan Marc Simon, diretor-executivo da Zero Waste Europe, uma ONG com sede em Bruxelas, explica à Deutsche Welle como o esquema de reciclagem europeu, em que os grossistas e os produtores pagam uma taxa pela recolha e tratamento de embalagens plásticas, não facilita. Como as luvas não são consideradas embalagens, não podem ser colocadas em lixeiras domésticas. Mesmo as luvas feitas de borracha de látex, um produto natural, nem sempre são uma escolha ecológica. Depende dos aditivos químicos usados para produzi-las, alguns dos quais podem prejudicar o meio ambiente quando se decompõem.

Por estes dias, a sustentabilidade praticada não pode fazer retroceder o combate aos resíduos de plástico, o que significa não perder de vista todo o ciclo de vida de um produto, desde o design inicial até à última utilização. “O pensamento deve ser o mesmo, seja uma garrafa de limonada ou uma máscara usada num hospital. É claro que não ajuda estarmos em plena crise, principalmente, quando toda a gente quer usar uma máscara”, explica Richard Thompson, professor e diretor do Instituto Marinho da Universidade de Plymouth. Para a comissária europeia para questões ambientais, Vivian Loonela, em declarações à EurActiv, ainda é muito cedo para avaliar o impacto do novo coronavírus na quantidade total de resíduos de embalagens plásticas gerados em 2020.

Entretanto as alternativas começam a surgir e a possibilitar fazer escolhas mais sustentáveis. Nos Estados Unidos, a fabricante de automóveis Ford está a produzir fatos reutilizáveis a partir de materiais de airbags, laváveis até 50 vezes, enquanto a Universidade de Nebraska-Lincoln também está a testar se a luz ultravioleta poderá descontaminar e prolongar a vida útil das máscaras médicas e com isso reduzir o desperdício.

Mas nem tudo é mau. Um grupo de mergulhadores está a fazer máscaras a partir de garrafas de água de plástico recuperadas dos oceanos. As máscaras são feitas pela Associação Profissional de Instrutores de Mergulho, em parceria com a Rash’R, uma empresa que vende roupas ativas e ecológicas. Segundo a revista Scuba Diving, têm um tamanho único para a maioria dos adultos, cinco padrões diferentes, dupla camada e são laváveis à máquina. Cada máscara é embalada com cinco filtros ativados por carvão reutilizável, que duram oito horas cada. Por enquanto, os filtros de substituição são vendidos online, embora queiram começar, em breve, a oferecê-los. O único senão destas máscaras (com cinco filtros), poderá ser o preço elevado, a rondar os €18, mas a associação não está a ter lucro com a sua venda: este é o custo real de produção. As cerca de 15 mil pré-encomendas já ajudaram a remover e a reutilizar 574 toneladas de resíduos oceânicos. Também a Float Digital, uma empresa de marketing online com sede no Reino Unido, usou plástico reciclado para fazer máscaras protetoras de impressão 3D para os profissionais de saúde. Haja imaginação.

Fonte: Visão

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