A DEPENDÊNCIA E MARGINALIDADE DA ILHA DE SANTO ANTÃO FACE À PROXIMIDADE DE SÃO VICENTE E A POLÍTICA TRIPOLAR E UNIPOLAR

A DEPENDÊNCIA E MARGINALIDADE DA ILHA DE SANTO ANTÃO FACE À PROXIMIDADE DE SÃO VICENTE E A POLÍTICA TRIPOLAR E UNIPOLAR

Share on twitter
Twitter
Share on facebook
Facebook
Share on email
Email

No período colonial, São Vicente tornou-se a ilha mais importante do arquipélago, graças ao seu Porto Grande e todas as atividades económicas à volta do mesmo.

Mindelo, sendo também a primeira ilha onde se criou o liceu e onde existiu um hospital que dava cobertura às outras ilhas, tornou-se o centro económico, social e cultural do arquipélago.

A ilha de Santo Antão, sem liceu, sem hospital e somente com um cais a partir dos anos 60, funcionou como sendo um apêndice de São Vicente, fornecedor de produtos agrícolas, comprador de produtos importados e comprador de serviços, designadamente saúde e educação. É evidente que estavam criadas todas as condições para que Mindelo fosse o recetor da riqueza criada na ilha de Santo Antão.

Portanto, as principais razões de dependência da ilha são de ordem económica, pela dinâmica criada à volta do Porto Grande de São Vicente, por ser a ilha recetora de produtos importados e que abastecia outras ilhas e por oferecer formação aos nossos filhos e melhor saúde à população da ilha das montanhas.

O que terá mudado em Santo Antão com a independência de Cabo Verde? No que diz respeito à dependência, pouco mudou. A mudança a registar são os grandes ganhos que a independência trouxe a todas as ilhas do país.

Pouco mudou quanto à dependência da ilha, porque com a independência nacional, optou-se por uma política de desenvolvimento tripolar nos centros urbanos ou semiurbanos, numa primeira fase, que incluiu Praia, Mindelo e Sal, e numa segunda fase, por uma política unipolar da Praia, na qualidade de capital do país, o que terá contribuído para aumentar as assimetrias regionais e as desigualdades sociais, relativamente ao interior de Santiago e outras ilhas, não obstante o maior nível de desenvolvimento de todas as ilhas e o aumento dos rendimentos de toda a população cabo-verdiana.

Na verdade, tem-se verificado uma degradação relativa de todos os indicadores económicos e socias da ilha de Santo Antão, em particular quando se compara com os indicadores dos referidos polos.

O aeródromo no Ponta do Sol, construído a medida de pequenos aviões existentes na altura, foi desativado, deixando de existir uma ligação com a capital e com as ilhas turísticas do país.

O único investimento pós-independência no cais do Porto Novo, que já existia no período colonial, privilegiou a construção da gare marítima e o espaço para armazenagem de contentores, mas, paradoxalmente, não recebe um único barco de longo curso ou um barco de cruzeiro, o que prejudica a ilha de Santo Antão, quer em termos de ligação marítima com o exterior, quer quanto ao desenvolvimento do turismo de cruzeiro.

A dependência, em termos de formação dos nossos filhos continua porque a ilha, nem sequer possui um único polo de ensino superior, não obstante grande parte dos estudantes das várias faculdades existentes em Mindelo, seja oriundo de Santo Antão.

A dependência, em termos de melhor saúde continua porque o único hospital existente na ilha precisa ser reforçado com mais recursos humanos e equipamentos.

Por por causa dessa dependência e marginalidade os nossos jovens desempregados e sem nenhuma perspetiva de futuro, migram para outras ilhas, à procura de emprego.

Por causa dessa dependência e marginalidade é preocupante a diminuição permanente e constante da população geral da ilha, que se vem verificando ao longo de vários anos.

Por causa dessa dependência e marginalidade, não há condições para o desenvolvimento do turismo em geral e do turismo de cruzeiro, em particular.

Por causa dessa dependência e marginalidade, não há condições para grandes investimentos privados, sem o qual não há desenvolvimento da ilha.

Santo Antão é uma das ilhas de Cabo Verde com maiores potencialidades económicas, quer em termos do turismo de natureza, com alto valor acrescentado, quer em termos de agricultura por possuir as maiores reservas de água do país, quer em temos piscatórios, por possuir os maiores bancos de pesca do país, quer em termos de indústria e particularmente a indústria agroalimentar.

É triste constatar que uma ilha com as potencialidades que Santo Antão oferece, seja das mais pobres do país, que essas potencialidades não tenham sido devidamente aproveitadas e que o mais grave, que seja do meu conhecimento, não existe ainda uma visão e uma estratégia para inverter a situação.

O recente e grande investimento de milhões de dólares feito no cais do Porto Novo, sem que permitisse sequer receber um barco de cruzeiro ou de longo curso, deixa todos os santantoneneses tristes e mostra que ou não existe uma estratégia de desenvolvimento para a ilha, ou existindo, não serve o desenvolvimento da ilha.

O que falta para que a ilha possa de facto iniciar o seu próprio processo de desenvolvimento e inverter a situação de dependência, marginalidade, crise e despovoamento? Falta uma visão política e uma visão estratégica de desenvolvimento para a ilha, que inclui necessariamente o investimento em duas infraestruturas estruturantes: a construção de um aeródromo e a ampliação do cais.

É evidente que o investimento num hospital que reduzisse a dependência do Mindelo e da Praia e que permitisse a complementaridade com São Vicente, servindo eficazmente os residentes e o turista, bem com a instalação do ensino superior e uma maior dinâmica da formação profissional adequada para servir o desenvolvimento, são extremamente importantes e inserem-se dentro do contexto da estratégia de desenvolvimento global da ilha.

Na verdade, a nossa geração falhou em termos de uma visão estratégica de desenvolvimento da ilha. Talvez a hipótese de criação da regionalização, como órgão de decisão e planificação, venha a dar poderes aos santantonenses para equacionar e defender uma visão estratégica que melhor sirva a ilha.

Deixo um apelo a todos os santantonenses e em particular aos seus quadros e jovens para continuarem a luta em defesa dos reais interesses de Santo Antão, sendo importante a unidade de todos no quadro de uma visão estratégica e integral do desenvolvimento da ilha.

Após essa análise muito geral, nos nossos próximos artigos vamos aprofundar cada uma das principais questões abordadas neste artigo, sempre numa perspetiva técnica de dar a minha modesta contribuição.

Josefá Barbosa

(Economista)

Opinião

Fechar